Na maioria dos casos colocada por simples curiosidade, não tem a resposta simples que se imagina, pelo menos não se quisermos usar de algum rigor. A pergunta aparentemente simples tem uma implicação maior e que é quando se introduziu em Portugal a imprensa de caracteres móveis inventado por Guttemberg.

Página da obra MOYSES BEN NAHMAN. PERUSCH-Ha-Tora [Comentário sobre o Pentateuco]. Lisboa: Rabi Elieses Toledano, 1489. Exemplar vendido na ECLÉCTICA LEILÕES.

São conhecidas várias notícias de títulos impressos no século XV em Portugal, livros que até hoje nunca apareceram. Por exemplo, D. Francisco Xavier de Meneses, na Colecção dos Documentos e Memórias da Academia Real da História Portuguesa fala das

“obras do Infante Dom Pedro com esta declaração no fim: Este livro se imprimiu seis anos depois que em Basileia foy achada a famosa arte da imprimissão. O que serve muito para averiguar a Epoca deste admirável invento, e disputar a glora a Moguncia, e mostrar a brevidade com que se introduzio em Portugal.”[i]

E ainda devemos acrescentar os testemunhos de Garcia de Resende e de Rui de Pina sobre “a letra de forma” e da “livraria em seus paços” que juntou D. Afonso V, respectivamente.

Deste modo, é muitíssimo difícil estabelecer onde e quando foi introduzida em Portugal esta nova indústria, sendo maior a especulação que qualquer certeza. Como a maioria dos historiadores referem, apenas o surgimento de exemplares – como aconteceu em 1965 com o famoso Tratado de Confissom, impresso em Chaves, ou em 1982 com a identificação de um fragmento de uma Ars Eloquentiae – poderá ir resolvendo as inúmeras dúvidas sobre esta matéria.Objectivamente, e de acordo com os dados hoje disponíveis, o primeiro livro conhecido, isto é, do qual existe um exemplar, publicado em Portugal com recurso a caracteres móveis foi um Pentateuco impresso em Faro e em cujo colofão consta a seguinte inscrição: “Acabou-se aqui em Faro, aos 9 dias do mês de Tamuz, no ano Dizei ao justo que bem [lhes dirá], por ordem do nobre e alto Dom Samuel Gacon. Que Deus o proteja e guarde”. A data expressa no colofão é 30 de Junho de 1487 [ii].

E o primeiro livro conhecido impresso em português é o Summario das Graças impresso em Lisboa, em 1488. [iii]

No total, entre 1487 e 1500, são conhecidos cerca de 30 títulos impressos em território nacional em hebraico, latim, castelhano e português.


[i] MENESES, Francisco Xavier de, «Noticia da Conferencia que a Academia Real da Historia Portugueza fez em 23 de Agosto de 1724» in Collecçam dos Documentos e Memorias da Academia Real da Historia Portugueza, que neste anno de 1724 se compuzerão e imprimirão, Lisboa Ocidental, na Officina de Pascoal da Silva, 1724, Num. XXIII, p. 7. Existem outros exemplos de obras cuja notícia nos chegou, mas das quais nunca se conheceu exemplar algum. Cf. DIAS, José Alves, «Nova forma de transmissão do verbo: a Imprensa» in Nova História de Portugal, Portugal do Renascimento à Crise Dinástica, v. 5, p. 490ss

[ii] Data obtida a partir do recurso à gematria, ou o processo segundo o qual uma data é expressa por letras de valor equivalente. Cf. DIAS, João José Alves, ob. Cit., p. 494. A referência bibliográfica do exemplar na colecção da British Library encontra-a aqui: https://data.cerl.org/istc/ib00525580?style=expanded

[iii] Cf. DIAS, João José Alves Dias, «Sumário das Graças: o primeiro impresso português conhecido» in LeiturasRevista da Biblioteca Nacional, Lisboa, Biblioteca Nacional, 1997, n.1, pp. 107-206