Traça é um termo comum empregue por muitos profissionais, infelizmente com alguma frequência, indicando que o exemplar foi atacado por insectos que fizeram do papel ou da encadernação o seu alimento para o estômago, em vez de alimento para o espírito. Embora haja outras espécies de insectos que atacam os livros, o bicho-da-prata é um dos que se encontra com frequência.

Embora sejam várias as espécies responsáveis pelos danos, um bastante comum é o chamado “bicho-da-prata” (Lepisma saccharina), insecto desprovido de asas, pertencente à ordem Zygentoma e que existe há cerca de 300 milhões de anos. O seu nome comum advém da sua cor, prateada. Em língua inglesa é conhecido por “silverfish” devido à sua cor, forma e modo como se desloca, semelhante a um peixe.

Os ovos do bicho-da-prata são postos por baixo de objectos ou em pequenas fissuras. Em média, cada adulto põe cerca de 100 ovos a temperaturas entre 22ºC e 26ºC. O tempo de encubação dura cerca de 43 dias a uma temperatura de 22º e 19 dias a 32º, atingindo o estado adulto entre 3 meses até 3 anos. Durante o processo de desenvolvimento até ao estado de reprodução, as larvas não sobrevivem a temperaturas que excedam os 36º. Durante a idade adulta, cada bicho-da-prata muda de pele e reproduz-se cerca de 50 vezes, vivendo cerca de dois a três anos e meio, dependendo da temperatura média.

Alimentam-se essencialmente de fungos e outras matérias orgânicas. É por isso que os livros antigos são os mais atingidos, pois o seu processo de manufactura – desde o papel até à encadernação – envolve matérias orgânicas como farinhas e tecidos naturais. Não precisam de água, mas altos índices de humidade favorecem a sua vida.

Sobre o combate a este tipo de insectos, há algumas fórmulas populares que se partilham e contam. De acordo com Carter, “dizem-nos os especialistas que a traça não suporta a luz do Sol, mas no que é que isto nos adianta?” (cf. Carter, p. 206). E Borba de Moraes conta que alguns aconselham o uso de querosene nas páginas e encadernações. Com ironia, o bibliófilo brasileiro ressalva que tal prática deve afastar mais bibliófilos que a própria traça. (cf. Moraes, O Bibliófilo Aprendiz)

O conselho dado pelos especialistas a Carter não é nada desprovido de sentido. Sabemos que as larvas desta espécie não se dão bem com luz mais intensa, ao mesmo tempo que precisam de um ambiente calmo para se desenvolverem. Deste modo, quando nos perguntam qual o melhor método para prevenir o ataque de insectos, particularmente do bicho-da-prata, o melhor de todos é tirar os livros da estante, abri-los e dar-lhes luz com bastante regularidade. Os danos provocados em livros bastante utilizados é mínimo. Ao invés, livros que ficam guardados em estantes durante longos períodos, particularmente em lugares escuros e húmidos, são os mais vulneráveis.

Há quem utilize cânfora. Sabemos que funciona como repelente natural. Mas talvez os restantes membros da família não fiquem muito agradados.

Prevenir é sempre melhor que tratar. Monitorize com frequência os livros da sua biblioteca, inspecione quaisquer sinais da presença de insectos – pó muito fino que caia pela talagarça é sempre péssimo sinal – e folheie os seus livros regularmente. Caso encontre algum suspeito, isole o livro em causa, monitorize a evolução e aumente a vigilância na restante biblioteca, em especial na estante onde aquele se encontrava. Por vezes, o simples facto de o livro sair do local é suficiente para impedir maiores danos.

Para outros casos, são necessárias medidas um pouco mais activas. Uma das técnicas utilizadas é através do recurso ao congelador do seu frigorífico. Não vou aqui explicar a técnica, mas pode encontrar indicações aqui.

Alguns bibliófilos, principalmente aqueles que coleccionam livros mais antigos, levam os seus livros a estas empresas especializadas para serem expurgados antes de terem lugar nas suas estantes. É uma excelente forma de prevenir a entrada de intrusos e que, por norma, tem um custo relativamente reduzido.

Finalmente, para casos mais problemáticos, apenas empresas especializadas o poderão ajudar. Assim que perceba que a situação fugiu ao seu controlo – novas vítimas regulares, aumento dos danos em livros identificados, etc. – não adie o aconselhamento profissional.