O Itinerário de Jan Huygen von Linschoten é uma das obras mais importantes alguma vez publicadas sobre a expansão portuguesa no Oriente. Segundo a maioria dos estudos, a obra desempenhou um papel fundamental na política ultramarina Holandesa, tendo sido usado durante todo o século XVII como guia para as suas navegações naquela região do Globo. Uma das suas edições – a terceira edição francesa – já passou pela Ecléctica Leilões. Fica aqui uma pequeníssima biografia do autor e algumas indicações bibliográficas sobre a obra.

Retrato de Linschoten presente em todas as edições da obra

Jan Huygen van Lischoten nasceu no final de 1562 ou no início de 1563 na cidade de Halermo. Mudou-se ainda novo para Enkhuizen, uma cidade muito ligada às actividades marítimas e uma das mais importantes cidades portuárias da Holanda. Desde novo ligado ao mar, Linschoten parte com 16 anos ao encontro dos irmãos instalados em Sevilha, onde chega em 1579, daí partindo para Lisboa onde adoece gravemente. Recupera depois de o terem sangrado sete vezes e coloca-se ao serviço de um comerciante onde ganha experiência nos negócios. Em 1583 chega a sua oportunidade de viajar ao serviço de D. Vicente da Fonseca, um dominicano nomeado por Filipe II Arcebispo de Goa, do qual um dos irmãos de Linschoten era escrivão de uma das naus.

Chegado a Goa em Setembro do mesmo ano Jan Huygen estabelece-se como escrivão do Arcebispo que, partindo para Lisboa a fim de esclarecer o Rei das suas desavenças com o Vice-Rei da Índia, delega no jovem holandês a responsabilidade de cobrança das rendas e manutenção da sua casa. D. Vicente acaba por falecer em 1588. Tendo já Jan Huygen sabido da morte de um de seus irmãos e de seu pai e, provavelmente sem apoio para conseguir um novo emprego, decide regressar à sua pátria.

Embarca na nau Santa Cruz conseguindo um lugar a bordo como feitor da pimenta ao serviço da casa comercial alemã dos Fugger e Welser. Parte a 23 de Novembro de 1588 para tomar pimenta em Cochim, partindo para Portugal no mês de Janeiro seguinte. Péssimas condições atmosféricas e uma má navegação complicam a jornada, desembarcando na Ilha de Sta. Helena a 15 de Maio de 1589. A 21 do mesmo mês partem para os Açores, onde encontram mau tempo e navios ingleses que desde a tentativa de invasão da “Invencível Armada” cruzavam o mar junto às ilhas a fim de interceptarem naus espanholas e portuguesas.

Refugiam-se debaixo das fortificações na barra desprotegida de Angra, na Ilha Terceira partindo Linschoten só em fins de 1591. Chegado a Lisboa a 2 de Janeiro de 1592, regressa a Enkhuizen a 3 de Setembro do mesmo ano.

Depois de mais duas viagens falhadas, Linschoten dedica-se à publicação da ssuas obras, a principal das quais este Itinerário. Morre com 48 anos a 2 de Fevereiro de 1611.

Frontispício da edição francesa de 1638 que passou na Ecléctica Leilões

O Itinerário foi publicado em 1596, em plena guerra dos Países Baixos pela independência do império Ibérico. Charles R. Boxer [O Império Marítimo Português, Lisboa, Ed. 70, 1992, pp. 115] observa: “[…] quando os Holandeses passaram à ofensiva na sua Guerra dos Oitenta Anos pela independência contra a Espanha, no fim do século XVI, foi contra as possessões coloniais portuguesas mais do que contra as espanholas que os seus ataques mais pesados e mais persistentes se dirigiram”.

Nesse sentido, o Itinerário de Jan Huygen van Lischoten desempenhou papel fundamental já que descrevia, de forma completa, todas as experiências, conhecimentos e informações acerca da Índia. Para compor a obra, Linschoten privilegiou os relatos orais pelos mais experientes navegadores e pelas suas próprias observações, mas socorreu-se também de algumas fontes escritas, entre elas as obras de Garcia de Orta.

Arie Pos e Rui Manuel Loureiro resumem as informações contidas na obra do seguinte modo:

  1. marítimas, acerca da navegação dos portugueses para e na Índia;
  2. comerciais e económicas, acerca dos portos comerciais da Índia, os mercadores, os produtos, os preços, as quantidades, etc.;
  3. geográficas e etnográficas, sobre os países e povos do Oriente;
  4. Botânicas e zoológicas, sobre a flora e fauna orientais;
  5. históricas, sobre a história da presença portuguesa no Oriente e sobre os vários países orientais;
  6. pessoais, sobre as suas experiências durante a estada na Índia.

Convém lembrar que o Itinerário fazia parte do equipamento dos pilotos holandeses nas suas expedições. Ainda em 1660 e 1661, Jan van Riebeeck, governador holandês no cabo da Boa Esperança, utilizou a carta de África e a descrição da localização do Monomotapa de Lischoten para organizar duas expedições por terra com o objectivo de encontrar minas de ouro.

 A sua importância foi imediatamente reconhecida pelos ingleses, que logo dois anos depois da primeira edição, fizeram sair a tradução para a sua língua, logo seguida da tradução latina e, apenas em 1610, a francesa, lançada no mercado por dois livreiros de Amesterdão em 1610. Em 1619, o livreiro Jan Evertsz Cloppenburch, que tinha adquirido as gravuras originais em água forte de Claesz, publicou uma reedição do texto francês com as gravuras e cartas originais e em 1638 uma terceira edição, uma das mais estimada pois, além de possuir as gravuras e cartas impressas com as chapas originais, tem mais mapas e está acrescentada com a Descrição da América ilustrada com uma carta da região publicada pela primeira vez na edição de 1619.

Curiosamente, apenas foi traduzida para português em 1997 pela chancela da extinta Comissão para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses. As razões para tal desprezo não a conhecemos, mas provavelmente o seu interesse em Portugal era reduzido, pois o Itinerário reproduzia com rigor aquilo que era já conhecimento adquirido pelos nossos navegadores e exploradores.

Sumariamente, apresentam-se de seguida as várias edições até meados do s. XVII por ordem cronológica, para mais informações consulte-se a bibliografia indicada.

1596, Primeira edição

Itinerario, Voyage ofte Schipvaert, van Jan Huygen van Linschoten naer bost ofte Portugacls Indien, inhoudende een corte beschryvinghe der selver Landen ende Zee-custen, met aenwysinge van aile de voornaemde principale Havens, Revieren, hoecken ende plaetsen, tot noch toe van de Portugesen ontdeckt ende bekent: Waer by ghevoecht zijn, niet aileen die Conterfeytsels vande habyten, drachten, ende wesen, so vande Portugesen aldaer residerende, als vande ingeboornen Indianen, ende huere Tempels, Afgoden, Huysinge, met die voornaemste Boomen, V rucbten, Kruyden, Speceryen, ende diergelijcke materialen, als ooc die manieren des selfden Volckes, so in bunnen Godts-diensten, als in Politie eñ Huijs-houdingbe: maer ooc een corte verhalinge van de Coophandelingen, hoe eñ waer die gbedreven eñ gbevonden worden, met die ghedenckweerdichste geschiedenissen, voorghevallen den tijt zijnder residentie aldaer. Alles beschreven ende by een vergadert, door den selfden, seer nut, oorbaer, ende oock vermakelijcken voor alle curieuse ende Liefhebbers van vreemdigheden. Amesterdão, Cornelis Claesz, 1596.

1598, Primeira edição Inglesa

Iohn Huighen van Linschoten his discours of voyages into ye Easte & West Indies : devided into foure bookes. London : Printed by Iohn Wolfe, [1598]

1599, Primeira edição Latina

Navigatio ac Itinerarivm Iohannis Hvgonis Linscotani in Orientalem sive Lvsitanorvm Indiam. Descriptiones eivsdem Terra: ac Tractvvm Littoralivm. Praecipuorum Portuum, Fluminum, Capitum, Locorumque, Lusitanorum hactenus navigationibus detectorum, signa & notae Imagines habitus gestusque Indorum ac Lusitanorum per Indiam viventium, Templorum, Indolorum, AEdium, Arborum, Fructuum, Herbarum, I Aromatum, &c. Mores gentium circa sacrificia, Pelitiam ac rem familiare[m]. Enarratio Mereaturae, quomodo & vbi ea exerceatur. Memorabilia gesta suo tempore iis in partihus. Collecta omnia ac descripta per eundem Belgicè; Nunc vero Latine reddita, in vsum commodum ac voluptatem studiosi Lectoris povarum memoriaque dignarum rerum, diligenti studio ac opera. Hagae-Comitis, Ex officina Alberti Henrici. Impensis Authoris & Cornelii Nicolai, 1599

1605, Segunda Edição Holandesa

—- Amesterdão, Cornelis Claesz, 1605

1610, Primeira edição Francesa

Histoire de la Navilgation de lean Hvgues de Linscot Hollandois et de son voyage es lndes Orientales: contenante diuerses descriptions des Pays, Costes, Haures Riuieres, Caps, & autres lieux iusques à présent descouverts par les Portugais: Obseruations des coustumes des nations de delá quant a la Religion, Estat Politic & Domestic, de leurs Commerces, des Arbres, Fruicts, Herbes, Espiceries, & autres singularitez qui s’y trouuent: Et narrations des choses memorables qui y sont aduenues de son temps. Avec Annotations de Bernard Palvdanus Docteur en Medecine, specialement sur la matiere des plantes & espiceries: & diuerses figures en taille douce, pour iIlustration de l’oeuure. Á qvoy sont adiovstees qvelqves avtres descriptions tant du pays de Guinee, & autres costes d’Ethiopie, que des nauigations des Hollandois vers Ie Nord au Vaygat & en la nouuelle Zembla. Le tovt recveilli & descript par Ie mesme de Linscoten bas Alleman, & nouuellement traduict I en François. Almestelredam, De L’Imprimirie de Henry Laurent, 1610

Variante: impressa por Theodore Pierre, 1610

1614, Terceira Edição Holandesa

—- Amesterdão, Jan Evertsz, 1614

1614, Segunda edição Latina

—- Amesterdão, Joannem Walschaert, 1614

1619, Segunda edição Francesa

—- Amsterdam, Chez Jean Evertsz Cloppenburch, 1619.

1623, Quarta edição Holandesa

—- Amesterdão, Ghedruckt voor Everhardt Cloppenburch, 1623

1638, Terceira edição Francesa

—- Amsterdam, Chez Evert Cloppenburch, 1638

1644, Quinta edição Holandesa

—- Amesterdão, Ghedruckt voor Everhardt Cloppenburch, 1644


Bibliografia:

POS, Arie & LOUREIRO, Rui Manuel Loureiro, <<Introdução>> in LINSCHOTEN, Jan Huygen van, Itinerário, Viagem ou Navegação para as Índias Orientais ou Portuguesas, ed. Preparada por Ariel Pos e Rui Manuel Loureiro, Lisboa, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1997, pp. 7-42

Para as várias edições por exemplo, Sabin, 41356 e segs.