Artigo convidado

Há certas companhias em viagens que deveríamos evitar. Menos que bengalas, são um fardo. Não chamam por nós, não desejam encontros, não se dão a conhecer, querem ser conhecidos. Eles mesmos não lêem, nem se entregam na obra para ser lidos. Querem apenas ser percorridos, folheados, comprados…vendidos. Que loucura é esta?

Tem longos anos. Erasmo conhecia-a. E ela tomava bem conta de todos aqueles “que correm atrás da fama imortal publicando livros […] principalmente aqueles que sujam o papel com meras bagatelas,” e dos que “recebem com agrado o louvor do vulgo”, dos que “ostentam nas livrarias obras com três nomes na primeira página”, dos que “editam obra alheia por sua” e até dos míseros eruditos que, para serem julgados pela minoria do doutos, “perpetuamente se torturam, acrescentam, mudam, suprimem, repõem, repetem, refazem, insistem, guardam o manuscrito durante nove anos e nem assim ficam satisfeitos.” E tudo para arrancarem a desejada exclamação arrebatada: «Ali vai o homem notável».

Então, como escolher boas companhias? Breve sugestão de Vergílio Ferreira em Pensar. Dois curtos diálogos que ilustram escritores muito distintos.

Futura boa companhia:

“ – Quando é que arranca para escrever um livro?
– Quando atingir um ponto em que não seja eu a escrevê-lo, mas ele a mim.” (162)

Má companhia (com resposta à altura):

“Ele:
 – Ninguém em Portugal escreve como eu.
  E o outro:
 ­– Ainda bem.” (167)
Vergílio Ferreira, foto de Inácio Ludgero / O Jornal

Hugo Chelo
Professor, Universidade Católica

Referências:

ERASMO DE ROTERDÃO, Elogio da Loucura, L, trad. port. Álvaro Ribeiro, Lisboa: Guimarães Editores, 1993, pp. 80-81.

FERREIRA, Vergílio, Pensar, § 162; 167, 4.ª ed., Lisboa: Bertrand Editora, 1992, pp. 130, 132.