Artigo convidado

Considerada por muitos como a primeira descrição de um percurso alpinista na história da literatura (pelo menos na literatura ocidental), a subida ao Monte Ventoso que Francesco Petrarca (1304-1374) relata em Familiarium Rerum Libri (IV, 1) arrebata a curiosidade dos aficionados por esta actividade desportiva e de imensos coleccionadores de curiosidades e de relatos de viagens. Parece que, sem outro motivo, pela primeira vez na história, um homem expressa: “o desejo de visitar um lugar célebre pela sua altitude” (sola videndi insignem loci altitudinem cupiditate ductus, IV, 1, 1).

Retrato de Petrarca, Altichiero da Verona, s.XIV

A narração sobre os preparativos, a escolha do trajecto mais adequado, o ritmo de ascensão inicial bastante forte, a fadiga que imediatamente se instala, os atalhos enganadores, as escarpas, as encostas perigosas, o grupo que momentaneamente discorda sobre o melhor caminho a tomar, a separação dos seus elementos, os acessos estreitos e vias largas, o efeitos da exaustão e da influência do ar rarefeito, o ataque ao cume, tudo surpreende pelo vivo realismo das descrições, pelos apontamentos técnicos, pelo entusiasmo e espírito ousado que a anima. E a conquista do topo. Os sentidos suspensos pela delicadeza do ar, a vista desafogada e sem limites, as nuvens a nossos pés, à direita as montanhas da província de Lyon, à esquerda o mar que banhava Marselha e Aquas Mortuas. O olhar do narrador não alcança os Pirenéus, mas apenas devido à debilidade da vista humana, dado que neste ponto nenhum obstáculo se interpõe. Uma aventura bem sucedida e o sentimento de plenitude que desponta com uma grande conquista. Todos aspiramos ser Petrarca, ainda que por breves instantes…

…«Mas havia mais uma coisa». Uma não, várias. As referências aos feitos de Alexandre, dos romanos; a dificuldade em encontrar bons companheiros de viagem (que não sejam demasiado silenciosos ou loquazes, frenéticos ou indiferentes, ligeiros ou pesados); os suspiros pelos céus de Itália; as comparações aos estádios, progressos e retrocessos da vida espiritual. Em ascensão, Petrarca entretêm-se com várias metáforas, «e as metáforas são uma coisa perigosa». Depois da conquista, ficamos a saber que, para além de seu irmão e servos, havia mais “companhias”. Havia um livro. Que ali os chamou. As Confissões de Santo Agostinho. Por acaso, o volume abriu-se no livro X (Forte autem decimus illius operis liber oblatus est) e os olhos de Petrarca caíram no trecho:

et eunt homines mirari alta montium et ingentes fluctus maris et latissimos lapsus fluminum et Oceani ambitum et gyros siderum et relinquunt se ipsos…
(“Deslocam-se os homens para admirar as alturas dos montes, e as ondas alterosas do mar, e os cursos larguíssimos dos rios, e a imensidão do oceano, e as órbitas dos astros, e não prestam atenção a si mesmos…” (X, VIII, 15)

Conversão de Sto Agostinho, Fra Angelico, Musee d’Art Thomas Henry, Cherbourg, France, http://www.ville-cherbourg.fr/index.php?id=717

Estupefacto e irritado consigo próprio, Petrarca fechou o livro. Ele sempre soube pelos filósofos pagãos que nada exterior à alma é digno de tamanha admiração. Mas naquele lugar célebre pela sua altitude foi obrigado a cair em si. Alguém o leu naquilo que já sabia, porque o tinha lido, e já esquecera. No topo do mundo, as boas companhias chamam-nos, reenviam-nos para a nossa memória. E é tudo o que é preciso: «cair em si».

 PS. E uma grande colecção de relatos de viagens começa e termina onde menos se espera.

Hugo Chelo
Professor, Universidade Católica

Referências:

SANTO AGOSTINHO, Confissões, trad. port. Arnaldo do Espírito Santo, João Beato e Maria Cristina de Castro-Maia de Sousa Pimentel, Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2000, pp. 457-459.

PETRARCA, Francesco, Familiarium Rerum Libri (IV, I, 1-28) in: Opere: Canzoniere – Trionfi – Familiarium Rerum Libri com testo a fronte, Firenzi: Sansoni Editore, 1992, pp. 385-391.