Artigo convidado

#livrosnoslivros #bibliofilia

Curiosa introdução ao tema «Viagens e Topografia» no Miller’s Collecting Books de Catherine Porter: 

Viagens, e a literatura associada de topografia (o estudo de regiões distintas), oferece uma variedade imensa. Aqui se incluem obras de cientistas, exploradores, académicos, diplomatas, espiões, comerciantes, militares e navegadores, missionários, excêntricos, dos que apenas são curiosos, e daqueles que, como R.L. Stevenson, viajaram “not to go anywhere, but to go”. 

E é também assim que Roger Crowley nos lê no seu Conquistadores, escolhendo para epígrafe do seu epílogo a expressão dos cingaleses sobre a inquietude crónica dos portugueses:

«…usam chapéus e botas de ferro e nunca param quietos»

Dactiloescrito do Livro do Desassossego em  https://ldod.uc.pt/facs/bn-acpc-e-e3-4-1-87_0079_40_t24-C-R0150.jpg acessível no site Arquivo do LdoD, https://ldod.uc.pt/ 

Mas há mais. Ou menos. Depende da perspectiva. Talvez nunca tenhamos sido inteiramente modernos. Ou melhor, sempre suspeitámos que havia algo mais. Não somos apenas inquietude, somos Desassossego:

Que me pode dar a China que a minha alma me não tenha já dado? E, se a minha alma mo não pode dar, como mo dará a China, se é com a minha alma que verei a China, se a vir? Poderei ir buscar riqueza ao Oriente, mas não riqueza de alma, porque a riqueza de minha alma sou eu, e eu estou onde estou, sem Oriente ou com ele.

E é por isso que o ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa abominava as viagens e a pobreza dos livros de viagens, sentia o tédio do constantemente novo, a náusea acentuada pelo movimento (externo). É que nós já somos “transeuntes eternos por nós mesmos.” Estranhos «chapéus e botas de ferro». Uma mesma consciência diz a si própria: “Nada possuímos, porque nem a nós possuímos. Nada temos porque nada somos. Que mãos estenderei para que universo? O universo não é meu: sou eu.” Não somos inteiramente modernos, somos mais. 

Hugo Chelo
Professor, Universidade Católica

Referências:

CROWLEY, Roger, Conquistadores: Como Portugal Criou o Primeiro Império Global, 7ª ed., Lisboa: Editorial Presença, 2017, pp. 352; 357.

PESSOA, Fernando, Livro do Desassossego composto por Bernardo Soares ajudante de Guarda-Livros na Cidade de Lisboa, 3ª ed., ed. Richard Zenith, Lisboa: Assírio & Alvim, 2008, pp. 131-133.

PORTER, Catherine, Millers’s Collecting Books, London: Reed International Books Limited, 1995, p. 132.